Instalações elétricas sobre forros e dentro de divisórias ocas

I

Este artigo é o resultado de uma pesquisa realizada durante a análise de um projeto de reforma de salas contendo forro de gesso e divisórias em MDF. Acredito que será útil compartilhar com outros técnicos o que a NBR 5410 diz a respeito das instalações elétricas nesse tipo de ambiente.

Como de praxe, vou me apoiar nos ombros do gigante Hilton Moreno, que escreveu um parecer técnico para uma empresa de pisos elevados contendo praticamente tudo que precisamos saber sobre o assunto. Basta trocar piso elevado por forro e adicionar algumas poucas notas.

Caracterização de forros e divisórias na NBR 5410

Na nota 5 da tabela 33 (Tipos de linhas elétricas) está escrito o seguinte:

Conforme a ABNT NBR IEC 60050 (826), os poços, as galerias, os pisos técnicos, os condutos formados por blocos alveolados, os forros falsos, os pisos elevados e os espaços internos existentes em certos tipos de divisórias (como, por exemplo, as paredes de gesso acartonado) são considerados espaços de construção.

Portanto, os forros falsos e as divisórias ocas, por dentro das quais passam as linhas elétricas até chegarem ao ponto de conexão de um equipamento, são considerados espaços de construção no contexto da NBR 5410.

Métodos de instalação

E o que a NBR 5410 diz sobre os métodos de instalação em espaços de construção? A resposta está no item 6.2.11.5:

Nos espaços de construção podem ser utilizados condutores isolados e cabos unipolares ou multipolares, conforme os métodos de instalação 21, 22, 23, 24 e 25 da tabela 33, desde que os condutores ou cabos possam ser instalados ou retirados sem intervenção nos elementos de construção do prédio.

Copio abaixo o trecho da tabela 33 com os métodos de instalação do número 21 a 25.

Tabela 33 - Métodos 21 a 25

É de se notar que a norma impede o uso de condutores isolados (cabo 750 V) diretamente sobre a superfície dos forros, mas tão somente cabos uni ou multipolares (cabo 1 kV). Vamos falar mais sobre os cabos a seguir.

Essa proibição é explicitada no item 6.2.11.3 (Bandejas, leitos, prateleiras, suportes horizontais e fixação direta dos cabos em paredes ou tetos). Lembrando que bandeja na NBR 5410 é o que normalmente chamamos de eletrocalha sem tampa:

6.2.11.3.1 Nas linhas elétricas em que os condutos forem bandejas, leitos, prateleiras ou suportes horizontais, e nas linhas em que os cabos forem diretamente fixados em paredes ou tetos, só devem ser utilizados cabos unipolares ou cabos multipolares.

6.2.11.3.2 Para a fixação direta dos cabos em paredes ou tetos podem ser usadas abraçadeiras, argolas ou outros meios.

NOTA – Não se recomenda o uso de materiais magnéticos quando estes estiverem sujeitos à indução significativa de corrente.

6.2.11.3.3 Os meios de fixação, as bandejas, leitos, prateleiras ou suportes devem ser escolhidos e dispostos de maneira a não danificar os cabos nem comprometer seu desempenho. Eles devem possuir propriedades que lhes permitam suportar sem danos as influências externas a que forem submetidos.

No projeto o qual eu estava analisando, cabos unipolares saem de uma bandeja (novamente: eletrocalha sem tampa), seguem diretamente sobre o forro e descem por dentro das divisórias até as tomadas embutidas, o que corresponde ao método 21 da tabela 33. No parecer técnico do Hilton Moreno citado acima, ele insere uma nota interessante sobre esse método:

“No método 21, está claro que cabos unipolares e multipolares podem ser instalados de qualquer maneira em espaços de construção, sejam diretamente sobre as superfícies do espaço, sejam sobre condutos abertos, tais como bandejas, leitos, etc. Neste caso, é importante lembrar o conceito de que “espaço de construção” é apenas um espaço, ou seja, um local onde as linhas elétricas são instaladas, contrariamente a uma tendência errônea que poderia haver de se considerar um espaço de construção como sendo uma linha elétrica com regras próprias.”

Hilton Moreno

O parecer técnico tece comentários sobre os outros quatro métodos. Uma vez que o meu interesse na pesquisa foi o ambiente enquadrado no método 21, não vou repetir o que já está tão bem descrito no parecer. Mas vale a pena a sua leitura integral.

Impacto das influências externas

A determinação das influências externas (item 4.2.6 da NBR 5410) deve ser um dos primeiros passos do projeto porque elas têm grande influência na seleção das linhas elétricas corretas para a instalação. Vamos considerar aqui apenas duas delas relacionadas com o combate a incêndio: BD (Condições de fuga das pessoas em emergências) e CB (Estrutura das edificações).

Condições de fuga das pessoas em emergências

A NBR 5410 e a NBR 13570 (Instalações elétricas em locais de afluência de público) apresentam exigências para as linhas elétricas com relação à fuga de pessoas em situações de emergência. Acredito que a maioria dos projetistas imagina que as informações na tabela 21 da NBR 5410 se referem principalmente a situações de emergência que envolvam incêndios.

Tabela 21
Tabela 21 — Condições de fuga das pessoas em emergências

Classificar uma edificação contando apenas com as informações das colunas “Características” e “Aplicações e exemplos” da Tabela 21 deixa muita margem para o subjetivismo. O maior apoio para projetista nessa tarefa são as duas tabelas anexas da NBR 13570, as quais apresentam uma metodologia de classificação das influências externas da NBR 5410 em diferentes locais como estabelecimentos de atendimento ao público, supermercados, estabelecimentos de ensino, entre outros.

Voltando ao exemplo das salas com forro de gesso e divisórias de MDF, elas estão localizadas dentro de um prédio público com razoável afluxo de pessoas, inclusive nas salas a reformar. De acordo com as tabelas da NBR 13570, a classificação seria BD3. Eu acho que BD2 é mais razoável nesse projeto especificamente, mas na prática as prescrições da NBR 5410 serão as mesmas.

Vejamos o item 5.2.2.2.3, que está no contexto da proteção contra incêndio em locais BD2, BD3 e BD4:

5.2.2.2.3 Em áreas comuns, em áreas de circulação e em áreas de concentração de público, em locais BD2, BD3 e BD4, as linhas elétricas embutidas devem ser totalmente imersas em material incombustível, enquanto as linhas aparentes e as linhas no interior de paredes ocas ou de outros espaços de construção devem atender a uma das seguintes condições:

a) no caso de linhas constituídas por cabos fixados em paredes ou em tetos, os cabos devem ser não-propagantes de chama, livres de halogênio e com baixa emissão de fumaça e gases tóxicos;

b) no caso de linhas constituídas por condutos abertos, os cabos devem ser não-propagantes de chama, livres de halogênio e com baixa emissão de fumaça e gases tóxicos. Já os condutos, caso não sejam metálicos ou de outro material incombustível, devem ser não-propagantes de chama, livres de halogênio e com baixa emissão de fumaça e gases tóxicos;

c) no caso de linhas em condutos fechados, os condutos que não sejam metálicos ou de outro material incombustível devem ser não-propagantes de chama, livres de halogênios e com baixa emissão de fumaça e gases tóxicos. Na primeira hipótese (condutos metálicos ou de outro material incombustível), podem ser usados condutores e cabos apenas não-propagantes de chama; na segunda, devem ser usados cabos não-propagantes de chama, livres de halogênio e com baixa emissão de fumaça e gases tóxicos.

Sobre a escolha dos condutores para o projeto, o método de instalação 21 nos obriga a utilizar cabos uni ou multipolares, nos remetendo para as seguintes normas:

  • NBR 7286: Cabos de potência com isolação extrudada de borracha etilenopropileno (EPR, HEPR ou EPR 105) para tensões de 1 kV a 35 kV — Requisitos de desempenho;
  • NBR 7288: Cabos de potência com isolação sólida extrudada de cloreto de polivinila (PVC) ou polietileno (PE) para tensões de 1 kV a 6 kV – Especificação; e
  • NBR 13248: Cabos de potência e condutores isolados sem cobertura, não halogenados e com baixa emissão de fumaça, para tensões até 1 kV – Requisitos de desempenho.

Se “filtrarmos” essa lista com as exigências do item 5.2.2.2.3, a conclusão que chegamos é que somente poderão ser utilizados no projeto (método 21) cabos que atendam à norma NBR 13248.

Estrutura das edificações

O material de fabricação do forro e das divisórias também influencia na definição das linhas elétricas. É muito prudente conhecer essa informação e, mais importante, como os materiais estão classificados de acordo com a NBR 9442 (Materiais de construção – Determinação do índice de propagação superficial de chama pelo método do painel radiante) e com as normas técnicas do Corpo de Bombeiros local.

Tabela 24
Tabela 24 — Estrutura das edificações

No parecer técnico e no livro Cabos Elétricos de Baixa Tensão, Hilton Moreno tece os seguintes comentários sobre as instalações em espaços de construção:

Conforme a Tabela 32 da norma – Características dos componentes da instalação em função das influências externas, na classificação CB2, os componentes elétricos (e não elétricos) instalados em espaços de construção devem ser constituídos de materiais não propagantes de chama ou devem ser previstas barreiras corta-fogo ou ainda podem ser previstos detectores de incêndio sob o piso elevado.

Além disso, na Tabela 34 – Seleção e instalação de linhas elétricas em função das influências externas, no caso de situações CB2 (sujeitas à propagação de incêndio), as linhas elétricas em particular devem atender ao item 5.2.2.5, o qual reforça que devem ser tomadas precauções para que as instalações elétricas não possam propagar incêndios (por exemplo, efeito chaminé), podendo ser previstos detectores de incêndio que acionem medidas destinadas a bloquear a propagação do incêndio como, por exemplo, o fechamento de registros corta-fogo (“dampers”) em dutos ou galerias.

Hilton Moreno no livro Cabos Elétricos de Baixa Tensão

Compartilhamento de espaço com linhas de sinais e linhas não elétricas

O espaço sobre os forros falsos é disputado por vários sistemas: elétrico, hidráulico, de combate a incêndio, telecomunicação, etc. Por isso, deverão ser tomadas medidas complementares para garantir o funcionamento da instalação em meio aos riscos oriundos das sobretensões induzidas e das interferências eletromagnéticas causadas pela presença das linhas dos outros sistemas.

Com relação ao compartilhamento do espaço com outras linhas elétricas de sinais, o parecer técnico faz referência ao item 6.2.9.5 (Proximidade de outras linhas elétricas) e afirma que é permitida a convivência entre cabos de energia e cabos de sinais, tomando os devidos cuidados para agrupar os condutores de acordo com suas funções, calculando a distância adequada entre eles caso a caso, a fim de evitar interferências eletromagnéticas. Além disso, recomenda-se a leitura das recomendações presentes em 5.4.3.5 relativas à disposição dos cabos de energia e de sinal em geral.

Já com relação ao compartilhamento do espaço com linhas não elétricas, o item de referência na norma é o 6.2.9.4 (Proximidade de linhas não elétricas), o qual contém quatro subitems. Dois deles têm relação com o projeto analisado:

“6.2.9.4.1 Quando as linhas elétricas se situarem nas proximidades de linhas não-elétricas, o afastamento entre as superfícies externas de ambas deve garantir que a intervenção em uma delas não represente risco de danificação à outra.

(…)

6.2.9.4.4 Quando a linha elétrica, no todo ou em parte, seguir o mesmo percurso de canalizações que possam gerar condensações (tais como tubulações de água e de vapor), ela não deve ser disposta abaixo dessas canalizações, a menos que sejam tomadas precauções para protegê-la dos efeitos da condensação.”

Essas duas exigências são bastante difíceis de serem cumpridas, pois cada sistema tem suas normas próprias e recomendações específicas a respeito dos afastamentos dos outros sistemas, ficando o projetista à mercê da sorte quando não conta com uma equipe para fiscalizar as eventuais mudanças na instalação local.

Além disso, é bastante comum que o projeto elétrico seja o último a ser desenvolvido. Com isso, o projetista pode ficar sem espaço de trabalho suficiente para posicionar as linhas elétricas de acordo com o item 6.2.9.4.4.

Transição de linha em eletrodutos

Apesar do projeto analisado não conter eletrodutos, deixo registrada mais uma nota feita pelo Hilton Moreno no vídeo “Bucha no Eletroduto?” da série “Pode isso, Professor?”.

Nas transições dos condutores entre bandejas e eletrodutos, a alínea a do 6.2.11.1.9 diz o seguinte:

6.2.11.1.9 Devem ser empregadas caixas:
a) em todos os pontos da tubulação onde houver entrada ou saída de condutores, exceto nos pontos de transição de uma linha aberta para a linha em eletrodutos, os quais, nestes casos, devem ser rematados com buchas;

Então, se no projeto analisado fossem utilizados eletrodutos flexíveis metálicos, por exemplo, o que mudaria as terminações do circuito para o método 23, os pontos de transição entre a bandeja e os eletrodutos deveriam ser rematados com buchas.

Uso de cabos PP nas luminárias

Por fim, um comentário sobre o uso dos cabos PP, que ainda são muito utilizados em instalações fixas, contrariando as exigências da NBR 5410. Na seção 5.14 do seu livro Cabos Elétricos de Baixa Tensão, Hilton Moreno escreve:

Estes cabos não podem ser utilizados em todas as maneiras de instalar previstas na NBR 5410 que estão resumidas na Tabela 33 da norma. Em outras palavras, não é permitido instalar cabos PP (500 ou 750 V) e cordões paralelos e torcidos em eletrodutos, perfilados, canaletas, bandejas, eletrocalhas, leitos, sobre isoladores e todos os outros tipos de linhas elétricas. Tais condutores são destinados exclusivamente para a ligação de equipamentos elétricos (eletrodomésticos, eletroeletrônicos, ferramentas elétricas, fornos, motores, etc) à linha fixa (tomadas de corrente, ligação direta aos condutores dos circuitos, etc).

O motivo principal desta proibição reside nas diferenças entre as características, propriedades físico-químicas e ensaios químicos, mecânicos e elétricos que são especificados nas normas dos cabos para instalações fixas (ver Item 3.3) e aqueles que são fabricados pela NBR 13249.

A norma NBR 13249 está cancelada, tendo sido substituída pelas normas NBR NM 247-5, NBR NM 287-4 e NBR NM 243.

Recomendo também assistir outro vídeo da série “Pode isso, Professor?” intitulado “Cabo PP em Instalações Fixas“. Nele o prof. Hilton Moreno expõe sua interpretação sobre a situação corriqueira na qual algum instalador emenda os cabos que saem do reator de uma luminária com um pedaço de cabo PP para alcançar uma caixa de passagem sobre um forro falso. Resumindo, se o cabo PP saísse diretamente do reator e fosse ligado à instalação fixa, estaria tudo certo. Mas como existe uma emenda, que faria parte da instalação fixa, a instalação não está conforme. O correto seria fazer a emenda com cabo unipolar.

Conclusão

Certamente esse artigo sofrerá alterações à medida que receber correções, sugestões e comentários. Aguardo a contribuição dos leitores.

Sobre o autor

Frederico B. Teixeira
Frederico B. Teixeira

Belo-horizontino morando em Brasília, católico, marido de sorte, pai de duas meninas e dois meninos, engenheiro eletricista e desenvolvedor web freelancer com múltiplos interesses.

2 Comentários

  • Bom dia!
    Sua análise servirá para mim como material de estudos de anteprojeto por muito tempo….
    Me ocorreu uma dúvida apenas sobre um ponto:
    Se no projeto, estiver contemplado a aplicação de eletroduto em aço galvanizado para cabo 06.1kV em espaços de construção citados na análise em conformidade com a norma, seria um desperdício de material? Ou mesmo usando cabo 06.1kV e aplicar eletroduto em PVC, estaria em desconformidade? Levando em consideração que o próprio cabo 06.1kV pode ser aplicado diretamente em espacos de construção previstos para linhas elétricas e atendem a conformidade prescrita pela norma.
    Agradeço a Luz da sua análise Chefe!

    • Obrigado pelo comentário, meu amigo.
      Também me veio essa dúvida sobre por que então utilizar um conduto – seja ele de PVC ou de metal – se é possível utilizar diretamente os condutores sobre o forro. Eu acho que não será desperdício porque o conduto metálico, por exemplo, poderá servir como blindagem eletromagnética aos efeitos de outras linhas no local. Ou ainda de proteção contra água.
      O eletroduto de PVC só poderia ser utilizado em local classificado como BD1 (Baixa densidade de ocupação e percurso de fuga breve); caso contrário vale a alínea c do item 5.2.2.2.3 na NBR 5410, que eu copiei integralmente no artigo.